sinto-me corruptamente sozinho. abandonado por negligência própria às vontades outras, que da novidade se fizeram tamanha fogueira, de chamas que lançam fagulhas até ao alto das estrelas, de calor que vem ardendo até aos ossos e luz que parece engolir o horizonte e o resto, tudo de uma vez. parece não combinar o sentimento com a imagem. talvez seja só medo. enfim, sinto que terminarei a vida com nada nas mãos. sinto que poderei ter sucumbido à luxúria ou ao corpo que, não tendo sede, talvez quisesse beber de outros poços. sinto todas as hipóteses dolorosas e todos os infames actos que levei a cabo e até o prazer total daquilo que me levei a fazer. tenho correntes marítimas a contorcer-se dentro de mim, ventos do norte e do sul, ciclones inteiros, a mudar-me o temperamento e talhar-me a vontade. já nem sequer sei se é vontade a vontade que sinto. não sei se me move o dever ou o desejo, mas sei que desejo pelo meu bem. flagelo-me em todas as horas em que me sinto feliz, porque é uma felicidade sangrenta. penitencio-me de todas as vezes que caminho para alguns braços, porque sei que acabarei por não ter um colo onde cair morto.
resumindo, sinto que caminho para o inevitável fim de me ver sozinho e pobre. eu sabia este destino como certo. só não o sabia tão assombrosamente próximo.
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