terça-feira, 8 de julho de 2014

fui até à ponta do pinhal de lá, onde cavaram uma estrada nova no fundo de um vale, e fiquei-me, cansado, a encostar-me ao pôr-do-sol, na impecável calma de um vento de lusco-fusco ferrugento. sinto a mesquinhez de todas as questões que me mordem - mais que os picos destas plantas que as minhas canelas encaram nuas - como sinto a mesquinhez da minha própria vida. sinto que poderia anular tudo com um encolher de ombros e deixar-me ficar a ver o sol se pôr. as sombras do ocaso fazem-me maior que eu e a luz âmbar passa pelos pinheiros como leite no chá. e à minha volta havia azinheiras mortas, arrancadas de raiz. já depois ouvi uma mãe gritar
- ah rúben faz favor de vir p’ra casa já
mas tu não ouves?
bem
a minha mãe gritou muita vez o mesmo, quando antes o coração saltava quando saltava a sola dos sapatos novos e o pior que se podia receber do mundo era a sola do chinelo maternal. três miúdos chutavam uma bola a uma baliza sem redes. o outro ficava com a tarefa de ir buscar a bola ao fundo do campo, à mercê do pontapé dos outros, fosse golo ou não. então que lhe importava que fosse golo, se a baliza não tem redes, e o caminho para a ir buscar é sempre o mesmo? rúben, não ouves?, a tua mãe chama-te. foge agora, sísifo do pelado. não sei qual deles era o rúben, se era um dos que chutava, se aqueloutro da baliza, mas quero pensar que era esse mesmo, o guarda-redes sem redes, condenado a ir buscar sempre a bola, golo ou não. de vez em quando poderá defendê-la, mas ninguém lhe derá crédito. tal é a vida, rúben, é sempre o gordo que vai à baliza.

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