Outro dia vi o amanhecer da janela do meu
quarto. Um cobertor de nevoeiro baixava sobre o pinhal e toda a luz
parecia trazer quebranto e presságio de coisas graves. A falta de vento,
mas a consciência da humidade na minha pele, pareceu entorpecer toda
esta hora e, lá na minha janela, senti viver-me a vida toda,
abismando-me entre mim e mim, naquele cenário parado. Ouvia-se só o
burburinho dos primeiros pássaros, que profetizavam mais, sinto-o agora,
que muitas línguas estrangeiras faladas bem. Decidi sair dali, com um
suspiro casual e um encolher de ombros - dali, da minha janela, onde
percebi a vida toda - que é como tenho saído de todos os decisivos
momentos da minha vida, e deitar-me na cama. Não me recordo de sonhar em
todas as horas que dormi, depois.

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