Míope da vida, alheio-me
como quem nega o dia ao não abrir as portadas das janelas. Anulo-me no
escuro do meu quarto com medo selvagem de magoar a vista na claridade
com que a verdade só pode chegar. Quando lhe vi indícios deu-me só para
chorar e nos meus olhos turvos tive saudades do sol.
Não enxergo
qualquer luz no ponto de fuga a que me levam todos os traços geométricos
da vida. Não vejo, honestamente, futuro para mim, da maneira que vivo.
Ironia violenta, o contexto inexplicável em que esta constatação fira me
chega. Aos outros não parece faltar luz nem pavio. Vejo a minha vida em
relâmpagos, fotogramas pálidos de movimentos sem relação necessária.
Onde peço o reembolso desta farsa má?

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