Dizem-nos, quando amavelmente nos metem à frente a
gramática racionada, que há diferentes tipos de espaço, entre eles o
psicológico. Esse era aquele de ser um fanfarrão rude de meter nojo aos
cães, digamos, no tasco e em casa ser a mulher a vestir as calças.
Dizem-nos que mudamos quando entramos num espaço diferente, o físico,
com pessoas diferentes, o social. Esqueceram-se do papel.
Do papel,
onde as palavras ficam, porque é das palavras que sai tudo - nem roda
nem lâmpada, o que nos difere dos macacos é a literatura, a mania de
dizer mais do que o necessário.
Escrevo, escreve-se, para construir
uma estabilidade. Abrir amanhã este caderno e ver cá esta gatafunhada
trencosa. Destruir o efémero. Tentar, tanto pior. Atenuar o que fica.
Construir o que ficou. Destilar toda a gota de suor. E é neste caderno
que posso ser. Rude, maricas, queixinhas, o que for. Mas tudo o que
estiver aqui esforça-se por ser genuíno, mesmo que seja inestético. A
incepção. Lá fora vou tecendo ramagens de mim, para me esquivar, para me
camuflar ou, antes, para me notar. O papel também é um espaço.
O
poeta, por exemplo, pode andar ao soco e ser um incorrigível libertino
quando anda por aí à procura de “inspiração” por esquinas e valetas e
gargalos, mas metam papel e tinta à sua frente e têm uma fera amansada,
um gatinho autêntico.
Toda a mácula e caralhice desaparecem quando o
poeta escreve, dando lugar à fraqueza e ao lamechismo. Um homem feito
menino, pronto a contrapiar tudo o que for sentimento de desagrado para
cima. Mas ele sabe-o e usa-o a seu favor - daí ser poeta.
A mariquice
metódica é para o poeta o mesmo que a dúvida era para o Descartes e ele
usa-a como a principal arma para atacar o desconhecido. A mariquice do
poeta, embora metódica e provisória, é a força do poeta. “Todo o poeta é
um fingidor”, lá está.

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