Acordei
cedo. Trago aos ombros o corpo da noite, pesado como chumbo, a noite que me
revelou o castigo. Talvez o abismo cerebral onde me meto mate os bichos que
teimam em comer-me o sono, a que costumo dar o nome de memórias. Lá, do outro
lado de um sono em estado semi-vivo adormeço parcialmente a pele. Declaro-me
culpado quando abro os braços e sinto a vida prender-me os movimentos. Tu andas
ocupado com as tuas gaivotas, preparar a fome no mar alto. Sonhei que havia um
planalto onde secavam meios pares de pernas e braços ao sol, era um sol que
queimava, entrava pelos poros quase até aos ossos, fervilhava, borbulhava. Sonhei
que havia uma árvore dentro da encosta, falava uma língua estranha, coisas da
terra hábil, contava a história dos meios pares de braços e pernas que secavam
ao sol, que tinham sido cavaleiros do apocalipse, mais tarde tinham sido apenas
ceifeiros. A imaginação é um laço que nos enfia ao pescoço, eu acordei com um
laço de corda no meu, bem feito, se me atirasse cama abaixo morria. Mas que
outra morte desejar senão esta, que outra morte querer com tamanha afeição
senão esta que me consome e me persegue o corpo enlatado de revolta. Sei de um
abismo maior que a encosta do planalto sonhado, menos real, mais catártico. Sei
dele exatamente no lugar dos meus sonhos.

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