um dia, todas as pessoas que construíram a minha infância estarão
mortas. e tudo o que restará dela será o cheiro a pinho e a sombra das
videiras. a terra por lavrar e o musgo sobre os marcos das herdades.
um dia, ninguém viverá na casa onde cresci. a carpete vermelha do
corredor que desemboca nas escadas de mármore continuará a aquecer no
verão e a largar aquele cheiro a estendal. as paredes enferrujar-se-ão
ao pôr-do-sol, vezes e vezes por vezes mais, mas ninguém estará lá para
medir a hipotenusa das sombras. os cortinados do meu quarto de criança,
se ainda houver cortinados, já não cheiraram a vento e giestas. não
mais descerei do meu quarto para me cheirar a carapau na brasa. todas as
flores que a minha mãe planta e cuida no seu jardim murcharão. assim
como a minha mãe. o barracão deixará de ter uso e nunca mais apertarei
as mãos sujas de óleo ao meu pai.
um dia, retornarei a minha casa e tomarei por mim todos os cheiros,
todas as cores, todos os cantos - mas, principalmente, os cheiros - e
provavelmente chorarei. pudesse eu escolher, e seria sempre julho, seria
sempre pequeno, e no meu quarto, debaixo dos lençóis de pano,
adormecendo, janelas de par em par, com o estridular dos grilos. ou
chegando a casa, julho igualmente, suado e sujo, do futebol ou da
bicicleta, a minha avó sentada no terraço com a gata no colo, o meu pai a
regar o milho, o lusco-fusco rasgado de nuvens. não sei porque hoje
estou nostálgico. em verdade, não sei porque não estou nostálgico
sempre. seria apenas evidente.

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