Vivo tantas vidas na antecipação de pedir um cigarro. Imagino-me abordando o fumador das maneiras mais dispersas, amigavelmente, umas mais formais, outras mais toscas, a medir o ângulo do sorriso falso e a postura do corpo e a posição das mãos; talvez mentir, arranjar uma razão para evitar um não, as engenharias certas da posição dos pés e do queixo, o olhar nos olhos para estabelecer sociabilidade; enfim, imagino-me fumando o cigarro, todos os travos suaves, o sabor do fumo e da folha, a dormência nas pálpebras e nos extremos de mim, dois momentos de sonho que imagino com regalo. E a oportunidade passa ou acho que não vale a pena (como assim passo pela vida) e fico sem o cigarro que nunca tive. Volto para a ideia de fumá-lo como quem volta a casa e fico lá até o sol se descobrir por detrás de uma nuvem grossa que o vento carrega; aí acordo, de verdade, e resigno-me.

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