Tudo me chega com o torpor baço e pegajoso de uma
garrafa vazia na adega a ganhar pó. Toda a luz do sol quente
ricocheteia no mundo e chega a mim em forma de tédio. Nada me parece
novo. Comprei a vida em segunda-mão e custou-me os olhos da cara. Não
tenho outros olhos com que veja que não os da coerência racional.
Olharei para o Coliseu de Roma e bocejarei, olharei o Partenon e ele só
me trará vontade de dormir.
Tudo me parece ou um trabalho hercúleo ou
um aborrecimento quixotesco. A única revelação, enfim, é que o mundo já
nada tem a revelar.
Importo-me porque sou do meu tamanho, mas inútil já no presente, fará no passado.
Do futuro nada espero, porque tudo se pode esperar.
Porém,
não cesso, como método, de pensar. Dou-me ao trabalho infrutífero de
escrever. O segundo homem a pisar a lua também pisou a lua. Há vitórias e
vãs glórias até na derrota. Um derrotado da vida como eu só pode sentir
como vitória tudo isto que vai deixando escrito, bem ou mal.
Um dia,
talvez, pai e conformado e comido do tempo e do tédio, abrirei estes
cadernos e, humilde, rir-me-ei, tenho a certeza, da minha ingenuidade
fatal e triste, e sentirei saudade, como deveria, segundo os poetas,
sentir da infância. Da infância tenho pouco que falar, tanto quanto para
recordar, mas invejo a lembrança desse atabalhoado eu que lá descansa e
não é em paz.

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