terça-feira, 27 de maio de 2014

Porquê viver na terra se existe a lua ...

Tudo me chega com o torpor baço e pegajoso de uma garrafa vazia na adega a ganhar pó. Toda a luz do sol quente ricocheteia no mundo e chega a mim em forma de tédio. Nada me parece novo. Comprei a vida em segunda-mão e custou-me os olhos da cara. Não tenho outros olhos com que veja que não os da coerência racional. Olharei para o Coliseu de Roma e bocejarei, olharei o Partenon e ele só me trará vontade de dormir.
Tudo me parece ou um trabalho hercúleo ou um aborrecimento quixotesco. A única revelação, enfim, é que o mundo já nada tem a revelar.
Importo-me porque sou do meu tamanho, mas inútil já no presente, fará no passado.
Do futuro nada espero, porque tudo se pode esperar.
Porém, não cesso, como método, de pensar. Dou-me ao trabalho infrutífero de escrever. O segundo homem a pisar a lua também pisou a lua. Há vitórias e vãs glórias até na derrota. Um derrotado da vida como eu só pode sentir como vitória tudo isto que vai deixando escrito, bem ou mal.
Um dia, talvez, pai e conformado e comido do tempo e do tédio, abrirei estes cadernos e, humilde, rir-me-ei, tenho a certeza, da minha ingenuidade fatal e triste, e sentirei saudade, como deveria, segundo os poetas, sentir da infância. Da infância tenho pouco que falar, tanto quanto para recordar, mas invejo a lembrança desse atabalhoado eu que lá descansa e não é em paz.

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